Aparecida Azedo:
Retrato de uma lutadora

Uma vida de lutas. Assim pode ser definida a trajetória existencial da pintora Aparecida Azedo, enfoque de exposição no Museu Nacional de Belas Artes e de um livro escrito por Ivan Alves Filho. Uma vida de lutas, sim, em todos os sentidos: no particular, no trabalho e, principalmente, na pintura. Porque não é fácil ser artista naïf no Brasil, sabemos todos.

Primeiro porque a crítica de arte brasileira há muitos anos não lhe presta a mínima atenção, tão comprometida está com os mercadores de arte na divulgação de linguagens avançadinhas, uma vez que, pelo menos aqui, vanguarda não é nada daquilo que antecede e, sim, uma função acadêmica da arte.

Desde tempos imemoriais, nossos artistas de normas cultas têm que estar ligados ao que seus colegas internacionais fazem em Londres, Paris ou Nova Iorque; segundo, quem é que se importa com um grupo de artistas autodidatas, sem status social, geralmente gente do povo, que estão fora do circuito elegante das galerias e que, principalmente, transmitem nos seus trabalhos uma profunda identidade nacional?

Tudo bem, nosso orgulho brasileiro foi sempre cotejar as novidades importadas, mesmo que artistas espontâneos como Chico da Silva (1910-1985) tenha conquistado premiação na Bienal de Veneza de 1962 e a pintora Lia Mittaraki (1934-1998) com sua visão paradisíaca do Rio de Janeiro figurasse na capa de revista norte-americana Time, por ocasião da Conferência Internacional de Ecologia, 1992. Lia Mitarraki foi a única artista brasileira a merecer essa honraria, sabiam?

Uma pintora como Aparecida Azedo, nascida numa pequena cidade paulista, Brodowsky (a mesma onde nasceu o grande Portinari) e que desde cedo engajou-se em lutas políticas munida de coragem e fé deve ser uma ilustre desconhecida para a maioria dos críticos e estudiosos brasileiros de arte.Afinal, ela dedica-se a pintar o Brasil. O Brasil de sua história, de seus costumes, de sua fauna exuberante e dos seus contrastes sociais, o mesmo Brasil que está na literatura de José Lins do Rego, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, João Ubaldo Ribeiro e tantos outros autores e músicos como Luiz Gonzaga; Zeca Pagodinho ou Villa Lobos.

Claro, a visão de Aparecida dessa nossa terra que todos amamos é aquela de qualquer artista de sua linhagem, ou seja, uma visão onírica, visionária até, porque nela está inserida a sinceridade de uma alma simples que se empolga com a nossa paisagem amazônica, seus bichos e aves, com sua história oficial e suas lutas política-sociais. Tudo sem proselitismo e com certa dose de jacobinismo, sim, porque Aparecida Azedo, em cada tela que pinta, parecer querer deixar o seu testemunho de artista que se ufana do seu país, ao contrário dos seus colegas intelectualizados que nos quer transmitir justamente o contrário, pois discutem não o país onde vive mas, sim, aquele que eles gostariam de viver.

Geraldo Edson de Andrade

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Museu Internacional de Arte Naif do Brasil